Rosiglitazona é usada em estudos para melhorar a captação do iodo radioativo em tumores pouco diferenciados da glândula
O carcinoma diferenciado da tiróide refere-se aos tipos papilífero ou folicular e, quando precocemente dianosticado, é curável na maioria dos casos. São tumores que, após a cirurgia para a retirada da tireóide, ao fazer o tratamento complementar com iodo radioativo, podem ser monitorados.
Um seguimento é considerado favorável em dois tipos de situação: 1) a dosagem no sangue de tireoglobulina (proteína exclusiva produzida na tiróide) é muito baixa ou praticamente indetectável (pois a glândula já não existe mais), e 2) a pesquisa de corpo inteiro (PCI), que é um exame de mapeamento de todo o corpo para avaliar restos da tireóide ou mesmo metástases corporais, for negativa.
Porém uma pequena parcela destes cânceres evoluiu para formas menos diferenciadas, ou seja, com uma capacidade menor e inadequada da captação (e conseqüente ação e aproveitamento) do iodo radioativo. Muito provavelmente, os indivíduos portadores destes tipos tumorais apresentarão uma evolução mais agressiva e, mesmo sem conseguir detectar as imagens na PCI, podem ter níveis de tireoglobulina presente, mostrando que as células cancerosas ainda estão agindo no organismo.
Existem pesquisas buscando grupos de drogas que facilitem a “rediferenciação” desses cânceres, e as glitazonas são uma classe promissora. São drogas, já usadas para o tratamento de diabetes tipo 2, que agem em um receptor hormonal nuclear – PPAR gama – envolvido com inúmeros processos celulares – desde a sensibilização à insulina, a diferenciação de células adiposas, inflamações e até carcinogênese. Comprovado por estudos, o PPAR gama está mais evidente nos tecidos com tumor de tireóide que nas áreas de tecidos sadios, sugerindo que essa expressão esteja ligada às ações de crescimento tumoral.
Um trabalho publicado na revista Thyroid, por médicos tailandeses (Tepmongkol et al), avaliou o efeito do uso oral da rosiglitazona (dose de 8 mg ao dia, por 6 semanas) em 23 pacientes portadores de câncer diferenciado da tireóide com baixa captação de iodo radioativo na PCI e altos níveis de tireoglobulina no sangue. Foi realizada uma dose de iodo radioativo para tratar as possíveis metástases desses pacientes, além de quantificada (como forte, fraca ou ausente) a expressão do PPAR gama. Concluíram, em um mapeamento de controle, que o tratamento com rosiglitazona aumentou a captação de iodo radioativo somente naqueles pacientes que apresentavam forte expressão do PPAR gama, diminuindo também a dosagem de tireoglobulina após o seu uso.
Ainda não é claro se o aumento da captação, após a rosiglitazona, está positivamente ligado ao sucesso terapêutico. Para isso, outros trabalhos devem ser realizados, com um número maior de pacientes e comparados a um grupo de controle. Também serão necessárias investigações futuras, testando o tempo de exposição necessário e a padronização da dose ótima a ser administrada de rosiglitazona.
Certo é que fica a nova idéia. A possibilidade de uma droga, antes usada somente para diabetes, ter outra ação: ajudar no tratamento de carcinomas pobremente diferenciados de tireóide.
Eu tenho diabetes tipo 2 e problema na tireóide.Gostaria de saber se este medicamento se encontra à venda e se eu posso fazer uso. Um abraço, Alda Maria.
Alda Maria:
A rosiglitazona é um remédio usado comumente por diabéticos e é encontrado à venda no Brasil. Para saber se é adequado ou não ao seu caso, somente conversando o médico que acompanha seu tratamento. No caso do uso em tireóide, o trabalho fixou-se em pacientes com câncer não bem diferenciado. Ou seja, somente neste pacientes portadores de carcinomas foi utilizado com algum benefício, mas outros trabalhos devem ser realizados, ainda nesta mesma população. Se o seu problema está ligado as disfunções (hipotiroidismo ou hipertiroidismo), não há referência deste uso, não poderia afirmar sobre os benefícios. Vamos aguardar outras pesquisas, torcendo por novidades!
Att.
Dra. Glaucia Duarte
Excelente artigo, parabéns.
Tive carcinoma papilfero da tireóide recentemente, era eutireoideano antes, mas portador de diabetes tipo II há 5 anos. Ao iniciar a terapia de reposição hormonal com tireoxina após radioiodoablação (RAI) notei expressivo aumento da minha glicemia média, de jejum e pós-prandial, com maior dificuldade de controle (tive que aumentar as doses de glibenclamida e de metformina). A hiperglicemia é dose-dependente em relação à levotiroxina, e de resposta rápida.
Li vários artigos (sou fisiologista e professor de medicina) que a tiroxina exerce efeito deletério sobre as células beta das ilhotas de Langerhans, e que esse medicamento em dose suprafisiológica é hiperglicemiante. A própria bula do Synthroid diz que “O tratamento com levotiroxina geralmente aumenta as necessidades de hipoglicemiantes orais e de insulina. Antes de iniciar o tratamento com Synthroid é conveniente investigar a existência de diabetes”.
Entretanto meu médico diabetologista nega conhecer qualquer efeito possível, atribuindo o efeito observado no meu caso a adaptações ao tratamento.
A Dra. acha que devo me preocupar? Como devo proceder, em sua opinião? Esse efeito é real?
Prezado Professor Renato Sabattini,
Agradeço muito sua participação no blog. Eu, pessoalmente, tenho estudado sobre a relação entre os hormônios tiroidianos e o uso de antidiabéticos. Na prática clínica, não é divulgado e não interfere – tão diretamente – a variação de dose de levotiroxina versus os antidiabéticos. Muito provavelmente, porque nós endocrinologistas acreditemos que a fração livre dosada (T4livre) é que responde pelos sintomas, e, pequenas variações não justificam a variação de dosagens das medicações.
Outro ponto: muito dificilmente relaciona-se aumento do antidiabético com associação da L-T4, sempre há o pensar de que a “metabologia” do diabetes (que envolve tantos viesses: peso/dieta/at. física) por si, já justifica o aumento de doses.
Mas, eu gostaria lhe apresentar alguns dos trabalhos que venho pesquisando e dividir minha opinião:
–Capelli e cols., ainda no prelo para o Diabetes Care, junho 2009, mostra um estudo sobre o uso da metformina e a função tiroidiana do DM2. E admitiu que a administração da metformina (acompanhou um pequeno número de pacientes por 1 ano) influencia no decréscimo do TSH, sem alteração significativa do T4 livre. Isto já havia sido observado por Isidro , no Endocrine, 2007, com mulheres com hipotiroidismo primário, diabéticas e obesas (em uso de metformina 1,7g por 3 meses) e Virgesky, JCEM, 2006 que sugeriu até um uso adjuvante da metformina numa supressão do TSH nos pacientes com câncer. Aparentemente, há relação de supressão do TSH ao uso da metformina.
–Sulfoniluréia estimula a secreção de insulina pela ligação ao receptor SU na membrana plasmática de células-beta pancreáticas. Fukuen em 2005, J Biol Chem., mostrou que a glimepirida induziu especificamente a transcrição do PPAR-gamma em ensaios com luciferase, recrutando mais coativador (DRIP205), dissociando os co-repressores (como co-repressor receptor nuclear) e silenciando o mediador para os receptores hormonais retinóide e tiroidianos.
Talvez, teoricamente, em alguns indivíduos mais sensíveis, pudesse haver uma alteração de sinalização, já que os receptores hormonais tiroidianos não foram devidamente estimulados. Faltam estudos em humanos, mostrando esta provável disfuncionalidade.
Alguns outros pontos interessantes:
–A albumina glicada pode ser um dos parâmetros utilizados (pouco usado) para medir o controle glicêmico. O hormônio tiroidiano é reconhecido por promover o catabolismo da albumina, afetando o nível da albumina glicada. Um trabalho recente de Koga, maio 2009, na Diabetes Res Clin Pract., mostrou que o nível sérico de albumina glicada era significante mais elevado em pacientes hipotiroideos não diabéticos. O valor do trabalho está na análise exclusiva de indivíduos com doenças tiroidianas, sem o viés da alteração albumínica pela hiperglicemia.
–Outro trabalho (Kosova e cols., Endocrine, 2008) evidencia que há diminuição dos níveis de leptina sérica durante o diabetes, durante o hipotireoidismo, e durante hipotireoidismo + diabetes em ratos tiroidectomizados e pode ser regulamentada em diferentes porcentagens num tratamento com insulina e várias doses de hormônio tireoidiano.
Na unidade de Tireóide, HC/FMUSP, atualmente pesquisamos os trabalhos, parte destes vem sendo desenvolvidos também na Argentina, sobre a hiperinsulinemia (e resistência insulínica) ser um fator propício (por ser a insulina, propriamente, um fator de crescimento) aos aumentos de nódulos tiroidianos, ainda sem conclusões definitivas.
Att,
Dra Glaucia Duarte