Por Glaucia Duarte*
Uma vez ouvi o Dalai Lama dizer que se quisermos alcançar felicidade genuína, a contenção interior é indispensável.
Em um primeiro momento, não entendi a frase e, quando achei que havia compreendido, discordei. Em meus argumentos, contenção era algo preso, sem liberdade, era algo que deveria sair com fúria e emperrava. E para mim, como ser falante que sou, contenção interior remetia, quase que de imediato, ao cartaz de silêncio que via nos hospitais. Shhhhhhhhhhhhhhhhh!
E ele continuava seu discurso com a palavra sö pa. No português, até era caricato. So-pa. Sö pa, em tibetano, tem na sua tradução literal “ser capaz de suportar”. Em sua tradução corriqueira, “paciência”. Ao mesmo tempo, nesta língua, esta palavra encerra a noção de resolução e de coragem. E como a paciência – ou mesmo, no mais certo significado, “a capacidade de suportar”, que para mim era tão delicada e sem ação – poderia transformar-se na força para resistir aos sofrimentos?
Precisei de uma lição.
Há cerca de dois anos, uma senhora veio ao meu consultório para emagrecer. Como tantas outras – excetuando-se que já sabia que estava com uma doença degenerativa do nervo óptico e tinha uma dificuldade visual. Perguntava da dieta, do exercício físico e examinava. Perguntava vagamente do tratamento dos olhos, mas ela sempre me elogiava com delicadeza ao final da consulta. “Parece que o cabelo está de uma cor nova, doutora?”, e saia com seus quilos a menos, com seu sorriso a mais.
Foi assim até o dia da alta, quando avisei que seu peso era exemplar – e ela não me elogiou. E, então, retruquei: “vai de alta e não diz um nada?”, com uma boca grande feito a de um sapo. Ela virou e sorriu, como sempre. “Não dá, doutora, hoje já está difícil de enxergá-la tão bem.”
Isso era sö pa. Ela só falava o que sentia. Era paciente com a sua condição, já que não havia nada a fazer para evitá-la.
Eu fiquei com uma raiva louca por não perceber que ela não via, há muito, a minha imagem. Ela me escutava e me elogiava pelo o que eu falava! E muito mais, pelo que ela ouvia daquilo que eu falava. Das vozes que formavam a sua vida tirava força para continuar enxergando além da razão física, além dos prejuízos de sua doença.
Foi aí que entendi como o autocontrole e a coragem diante da adversidade podem conferir serenidade, promover a sensação de não se deixar perturbar e serem, juntas, um antídoto poderoso a todo ressentimento e toda passividade em aceitar sentimentos negativos.
Verdadeiramente, contive interiormente a frase “…sö pa é a fonte do perdão. E é o que há de melhor para preservar nossa consideração pelos outros, não importa como se comportem conosco”. E fui feliz.
*direitos autorais pertencentes exclusivamente à Dra. Glaucia Duarte. O uso indevido dos textos – em parte ou no todo – sem a autorização expressa da autora estará sujeito à legislação vigente.
Boa noite.
Passei algumas horas lendo e analizando seus artigos; e de fato gostaria de lhe escrever com mais objetividade, que no momento não me dá segurança para tal. Mas após tirar minhas conclusões “não como sabichão” [referência ao texto 'Sabichões'], quem sabe voltarei a lhe escrever…Parabens pela sua dedicação.
Jose Adolpho Michelet
Olá Jose Adolfo Michelet,
Agradeço seu comentário, espero que goste e participe dos próximos novos textos.
Até lá,
Dra Glaucia Duarte
Dalai Lama, mestre, parabeniza-la seria ir de contra a sabedoria espiritual, não devemos enaltecer o nosso ego,mas de certo Drª Glaucia usou de sabedoria quando buscou reflexão interior na frase de Dalai Lama, no caso em que atendeu, inclusive paciência (ciência da paz) paciente (doença ou ausência da mesma?), usou de sabedoria, quando deixou de utilizar o modelo médico, e atribui-lhe um espaço para escuta, mesmo que apenas nas frases finais com elogio, isso permitiu a si mesma refletir e para sua ” paciente” o exercício da paciência, do amor, o verdadeiro milagre da vida, quando deixamos de nos colocar no sentido de amado e passamos a desejar, como amante, o que nos falta, passamos a sentir a falta, amor este não carnal de marido e mulher, mas amor que faz com que enxerguemos o próximo. Quando já não queremos só ser amado, mas quando doamos esta fonte inesgotavel de amor que existe dentro de nós, e neste momento de escuta que a Drª proporcionou para ambas, tornou isso real, e com certeza faz a diferença, ela foi de alta sim, sem falar nada, mas com certeza levando consigo esta experiência tão dificil de ser encontrada no modelo médico.
Atenciosamente,
Vania Paixão