Quaisquer transtornos alimentares necessitam ser diagnosticados e acompanhados preferencialmente por uma equipe multiprofissional: psiquiatras, psicólogos, nutricionistas, educadores físicos e, caso tenham conjuntamente alterações clínicas, um endocrinologista.
- O que é compulsão alimentar?
Compulsão significa um impulso incontrolável. Existe compulsão para comer, para beber, para fumar, para comprar, para furtar, para fazer sexo. A compulsão alimentar mostra-se em maior ou menor gravidade. Ela pode apresentar-se nos transtornos do comportamento alimentar, como na anorexia e na bulimia nervosas e no transtorno da compulsão alimentar periódica.
- O que é a “compulsão alimentar periódica” ou “binge eating”?
Uma das formas incontroláveis de compulsão alimentar é chamada, em inglês, de “binge eating”. A tradução para o português não é fácil e entre os termos que conhecemos poderia ser traduzido como “ataque de comer”, “comer compulsivo” ou, o mais simples e esclarecedor, “compulsão alimentar periódica”. É um episódio em que a pessoa come uma quantidade exagerada de alimentos, em um curto intervalo de tempo, perdendo o controle sobre o ato de comer. Depois disso, a pessoa tende a sentir-se culpada, triste e arrependida. Alguns pacientes ingerem imensas quantidades calóricas e dos mais variados tipos de alimento, desde gostosuras até misturas pouco comuns, mantendo o nível de descontrole que está associado com o episódio. As formas mais encontradas são as leves, geralmente percebidas na maioria das pessoas que tentam emagrecer.
- Quais as principais causas?
Os fatores psicológicos e físicos são as causas da compulsão alimentar. A angústia gerada pela necessidade de emagrecimento em uma determinada pessoa que não resiste a uma guloseima, que está proibida na rigorosa dieta que estava seguindo, pode, por exemplo, ser um fator psicológico desencadeante do episódio de binge. É um mecanismo conhecido como “violação da abstinência”, que, juntamente com outros fatores ambientais e emocionais, leva a um descontrole alimentar.
Muitos de nós já podemos, em algum momento, ter passado por isso: comer toda a caixa de bombons que ganhou, sentir-se tentado e sucumbir àquele alimento tão proibido e tão momentaneamente gostoso. A proibição irrestrita e inflexível de determinados alimentos no planejamento do que se vai comer apenas reforça problema da compulsão alimentar periódica.
Fatores orgânicos também estão ligados ao binge. O melhor exemplo é o neurotransmissor chamado serotonina, uma substância que transmite informações entre as células nervosas do cérebro (neurônios) e desempenha importante papel no controle do comportamento alimentar. O estímulo natural para a produção desta substância no cérebro é a ingestão de carboidratos. Quando comemos pães, massas, arroz, frutas, doces, ou seja, alimentos ricos em carboidratos, a serotonina aumenta. Sem o consumo dos carboidratos por longos períodos, a serotonina diminui. O equilíbrio dos níveis de serotonina no organismo é o freio para o ato de comer sem parar e transmite a sensação de saciedade. A compulsão ocorre quando a diminuição atinge um nível crítico.
Não é incomum que pessoas que querem perder peso passem o dia todo quase em jejum. Pular o café-da-manhã, comer apenas uma carne grelhada com salada no almoço, esquecer dos lanches intermediários às principais refeições, tirar os carboidratos da dieta - tudo isso é comum quando há o intuito de emagrecer mais rápido. E, no final da tarde ou à noite, normalmente, acontecem os episódios de comer compulsivo.
A compulsão alimentar pode ser “causada” pelo ambiente e estilo de vida, caso não se preste atenção. A importância de uma alimentação equilibrada, com quantidades de carboidratos, mesmo quando se quer emagrecer, é a melhor saída para reaprender a comer bem e saudavelmente.
- Como se diagnostica a compulsão alimentar periódica?
O diagnóstico desse transtorno é caracterizado pelo binge quando este ocorre pelo menos duas vezes por semana, nos últimos três meses. Existem trabalhos que relatam que, quanto maior o excesso de peso, maior a probabilidade de que a pessoa tenha a doença. A identificação precoce dessa forma de compulsão, quando se inicia um tratamento para redução de peso, é a chave da mudança alimentar necessária para o emagrecimento.
- Qual a freqüência da compulsão alimentar em pessoas com excesso de peso?
Estima-se que mais da metade das pessoas que procuram um tratamento médico para emagrecer apresentam episódios com algum gau de binge. Uma pesquisa mostrou que 15% dos indivíduos que passavam por tratamento para perder peso tinham pelo menos dois episódios por semana, mantidos pelos últimos meses. Outras pesquisas brasileiras e de diversos países mostram percentuais semelhantes, provando que a compulsão alimentar é um problema muito freqüente naqueles que tentam emagrecer, devendo sempre ser pesquisada. Se um problema compulsivo passa despercebido pelo médico ou nutricionista que tratam do paciente, ele não rececerá um tratamento adequado – o que pode comprometer o sucesso esperado como resultado.
- A compulsão alimentar existe na anorexia e na bulimia nervosas?
As pessoas com problema de peso, muitas vezes, têm compulsão alimentar, mas nem todo compulsivo é um obeso. É comum a compulsão alimentar estar associada à anorexia ou bulimia nervosas. Nessa última, os pacientes apresentam-se com peso normal ou pouco aumentado, e sempre está presente o binge. Entratanto, o transtorno da compulsão alimentar periódica é bem mais freqüente que a anorexia ou a bulimia, e dificulta a perda de peso (veja mais informações relacionadas ao clicar nos links sublinhados acima ou nas Páginas específicas listadas em box na lateral do blog).
- O que é o “comer compulsivo noturno”?
A síndrome do comer noturno, bem como o transtorno da compulsão alimentar periódica, dificultam que as pessoas consigam atingir um peso ideal. O primeiro caso foi descrito em 1955 pelo psiquiatra americano Albert Stunkard, que relatou que uma paciente obesa com graves problemas familiares não sentia fome alguma durante toda a manhã e, ao final do dia, não conseguia parar de comer, chegando a acordar várias vezes durante a noite somente para comer.
A chamada Síndrome do Comer Noturno tem como principais características os excessos alimentares noturnos, a falta de apetite durante a manhã e insônia. Outras pesquisas se seguiram e encontraram os seguintes dados:
- A freqüência é próxima de 1,5% da população geral, 9% em pacientes de clínicas especializadas em obesidade e até de 26% entre obesos mórbidos, ou seja, que apresentam Índice de Massa Corporal (IMC) maior do que 40 kg/m²;
- Os pacientes comem mais de 55% das calorias totais de um dia entre as 20h e as 6h;
- Despertar várias vezes durante a noite, geralmente só para comer;
- Piora importante do humor durante a noite.
A síndrome é um transtorno alimentar, mas também um transtorno do sono e um transtorno do humor, e não tem um tratamento específico. Medicamentos utilizados auxiliam no controle do comer noturno e nos sintomas depressivos que podem estar presentes.
- Como controlar a compulsão alimentar?
A prevenção ainda é a melhor saída. O diagnóstico precoce e claro feito por um profissional ajuda a entender e superar as dificuldades que causam o comer compulsivo.
É preciso evitar dietas para emagrecer que parecem ser muito restritivas e planejar uma reedução alimentar, comendo várias vezes ao dia refeições com pequenas porções de carboidratos, que podem evitar uma diminuição dos níveis de serotonina. Praticar atividades físicas regulares também ajuda no autocontrole e na situação da compulsão alimentar, além de proporcionar inúmeros outros benefícios à saúde.
No entanto, o planejamento alimentar associado à prática de atividades físicas, às vezes, pode não ser suficiente para o controle da compulsão alimentar. Nesses casos o uso de medicamentos pode ser útil. Os mais utilizados são os que agem por meio da serotonina (fluoxetina, sertralina, paroxetina, sibutramina), mas nunca devem ser utilizados sem prescrição e acompanhamento médicos. Em pacientes que apresentam obesidade mórbida grave, associada a uma compulsão alimentar incontrolável, em que não há sucesso nem com a adminstração de remédios, sendo que a pessoa já apresenta co-morbidades associadas (diabetes, hipertensão, risco cardíaco), existe o recurso da cirurgia bariátrica.